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porque a vida sim
é uma caixinha de SURPRESAS.

É engraçado. No começo daquele passeio, achávamos que seria o mais monótono e todos. A professora Viviane até tentou nos convencer de que aquele passeio seria um barato, e que, estando entre milhares de livros voltaríamos para casa mais cultos.
Mas eu continuava achando que aquele passeio seria o mais monótono de todos. Quem poderia imaginar que ficar caminhando horas e horas em uma praça cercada de livros, seria algo interessante. Mas foi.
Estávamos caminhando pela parte internacional da feira. Os guris estavam meio desinteressados por ela, até que eu olhei para o lado, onde uma banca me chamou atenção: a banca do Japão. Tenho muita curiosidade em conhecer melhor a sua cultura, sua língua, seus costumes, e, por que não, a sua literatura.
Os guris no começo não concordaram, mas de tanto eu insistir, consegui convence-los.
Para surpresa geral da nação, e para o meu total espanto, ao entrar na banca, não fomos recebidos por nenhum ser de olhos puxadinhos, pelo tipo melanina zero, cabelos pretos lisos e escorridos, dizendo repetidamente “arigatô”, “saionará” ou até mesmo um “nokote”.
Por falar em “nokote”, caí na tentação de procurar em um dicionário japonês a palavra “nokote”, besteira do Paulo e do Benhur, lógico. Reviramos o tal dicionário,e nenhum sinal da tal palavra, que na minha opinião é chinesa e não japonesa. Mas tudo bem. Desisti, mas eles continuaram procurando a palavra, mas nada acharam. De repente, ouvi a gargalhada do Benhur, e logo em seguida o Paulo gritando: “Nokote” não tem, mas achamos “noku”. “Noku” que significa em português, ato ou efeito de tirar algo por trás. Preciso falar mais alguma coisa? Maia um motivo de chacota entre os guris.
Apesar de estar interessante a nossa “caça ao nokote perdido”, me decepcionei com aquela banca. Esperava encontrar livros legais, tipo romance japonês, mas só tinha livros de Manga dos Cavaleiros do Zodíaco, da Sakura e de outros.
Quem diria né? Eu que achava que ia odiar a feira, acabei sendo a que mais se divertiu.
Saia pelo mundo e pergunte para os gringos se eles conhecem o Brasil. “Oh sim, Brasil, futebol, samba, carnaval.” Provavelmente esta seria a resposta.
Somos conhecidos por ser um país que investe milhões em meia dúzia de homens que se matam atrás de uma bola, mas que não gasta um tostão sequer para construir mais escolas.
Somos conhecidos por já nascer com o samba no pé, mas não por ter a garra de acordar as cinco da manhã para trabalhar por um salário mínimo.
O Brasil é lembrado por ser a terra-mãe do Ronaldinho, mas se esquecem que foi aqui que Casemiro de Abreu escreveu Dom Casmurro ou que Tarsila do Amaral pintou o tão famoso quadro Abaporu.
Somos um país que está ligado a uma só arte: o futebol, e esquecemos que além de milhares de Ronaldinhos por aí, existem milhares de Casemiros e Tarsilas, que só não investem em suas artes porque o governo federal muito pouco investe em uma das áreas que muito poderia lucrar: a cultura.
Enquanto não abrirmos a boca para reclamar, a resposta dos gringos continuará sendo a mesma.
ou como nunca deixa de rir com as coisas simples da vida.
Estava pensando, como parece chato essa coisa de virar adulto, as pessoas ficam mais sérias, mais responsáveis e blábláblá. Mas pensado melhor, ser adulto tem um monte de vantagens, como todas as fases da vida. Você tem seu próprio dinheiro, mais liberdade... O problema é se, ao crescer a pessoa pára de ficar feliz com as coisas simples da vida. Tem muito adulto chato que faz isso, mas acho que, crescer deixa de ser vantajoso e fica chato mesmo.
Todo mundo sabe que uma característica superdinâmica da infância é que basta mostrar qualquer coisa para um bebê ficar feliz – vamos supor um jacaré de pelúcia. Tu mostra o jacaré e ele fica hipnotizado. Natural, não? O bebê cresce e vira uma criança agitada. Ainda é fácil agradá-la. Ela já se encheu de jacarés de pelúcia, mas é só falar que está na hora de seu desenho preferido e pronto, lá está ela, explodindo de felicidade. Quando o bebê vira adolescente (cansei de falar bebê. Vai ser Beth, tá ? ), é a mesma coisa. Beth fica toda entusiasmada quando a mãe avisa que ela pode viajar com as amigas ou quando ganha uma saia linda.
Até que o tempo vai passando e a Beth faz, 20, 30, 40. E cada vez fica mais difícil deixa-la superalegre, com aqueles olhinhos brilhantes que ela tinha quando era pequena e lhe mostravam um jacaré de pelúcia. Beth mantém seu nível de felicidade mais ou menos instável, e é duro fazê-la ficar muito feliz. Coisas simples como descobrir um novo chocolate ou até mesmo ir a uma festa não a empolga tanto como antes, não só porque ela já vivenciou muitos lançamentos de chocolate e muitas festas, mas porque ela foi apagando dentro dela essa vulnerabilidade que até a fase adulta a gente tem de sobra.
Você conhece alguém como a Beth, que perdeu a vulnerabilidade ao simples depois de ficar adulto? Como se para crescer a gente tivesse que levar tudo a sério e só dar pulinhos de felicidade quando acontece algo realmente grande, tipo ter um filho? Acho que, quando a pessoa faz isso, as pequenas felicidades da vida perdem espaço e o dia-a-dia fica meio sem graça.
Eu sou daquelas que fazem questão de ser no melhor sentido da palavra – rir com comunidades idiotas do orkut, esquecer do mundo enquanto come um BigMac, enfim, ficar entretida com jacarés de pelúcia, (bem é uma metáfora, mas se você até hoje fica entretida com jacarés de pelúcia, nada contra.) Por isso acho que a vida adulta pode ser bem divertida sim. Você mantém seu espírito de antes e ainda por cima pode morar sozinha e sair de casa sem arrumar a cama.
Você coloca no seu álbum do Orkut, fotos de pessoas de outros países sofrendo, mas se nega a levantar a bunda da cadeira para ajudar pessoas que batem a sua porta. Enche seu Orkut com palavras e frases em inglês, mas se esquece de dizer obrigado por estar vivo. Você se preocupa em estar com o cabelo sempre impecável, mas esquece que existem milhares de pacientes químicos de câncer que não se importariam desde que tivesse ao menos um fio de cabelo. Você vive reclamando que não tem nada para comer, mas esquece que realmente quem não tem nada para comer não tem forças nem para reclamar. Você mergulha em um mundo de fakes no Orkut, mas na real isso é porque você não tem coragem de assumir quem realmente você é ou porque tem vergonha de assumir que se preocupa mais em cuidar das vidas alheias? Você vive dizendo eu te amo para pessoas que mal conhece, mas esquece de repetir essas palavras para quem lhe deu a vida. Você vive reclamando que sua vida é uma droga, mas esquece que existem pessoas que lutam para continuarem nela. Reclama por ter que andar a pé alguns metros, mas nem lembra que muitos paraplégicos adorariam fazer esta caminhada. Você reclama que é sempre injustiçado pela vida, enquanto muitos morrem vítimas da violência. Quem realmente é injustiçado? Você porque perdeu o emprego? Ou ele que perderam a vida? Vive reclamando que as roupas já estão velhas e que você está gorda, horrível, como se beleza fosse algum tipo de doença, mas se esquece de que ainda NÃO HÁ cura para a AIDS. Vamos morrer reclamado de tudo, porque nunca estamos satisfeitos com nada. Ou nos contentamos com o que temos, ou envelhecemos precocemente reclamando da nossa vida e das vidas alheias também.